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Edukators Brasil

Notas do Diretor — por Hans Weingartner

Sobre o Contexto

O Brasil é um país incrivelmente rico. Tem os maiores recursos hídricos do mundo e também o solo mais fértil. Os agricultores podem colher até cinco vezes por ano. O Brasil tem o maior volume de ouro do mundo, o maior de minério de ferro, as pedras mais preciosas. Uma população jovem e trabalhadora. Uma cultura rica. É quente, ensolarado e cheio de praias de areia branca. Selvas deslumbrantes, que abrigam mais espécies do que qualquer outro lugar do planeta. O Brasil poderia ser um lugar de felicidade. Mas, para muitos, é um lugar de horror, com criminalidade extrema e pobreza desenfreada.

O problema central é a injustiça social. É a base da violência. Quando alguns são ricos e a maioria é pobre, surge o crime. Todos os países do mundo onde as pessoas vivem felizes têm uma coisa em comum: pequenas diferenças de renda, um abismo muito pequeno entre ricos e pobres.

No Brasil, porém, o Índice de Gini (a medida da desigualdade social) é pior que o da Rússia, de Ruanda ou do Haiti, no mesmo nível do Zimbábue ou de outros países em desenvolvimento. E, no entanto, o Brasil já não é mais um país em desenvolvimento — está entre as dez maiores economias do mundo! Mas suas estruturas sociais não acompanharam o crescimento econômico; as elites ficaram com a maior parte dos lucros. E o país inteiro sofre.

Nenhum dos filmes brasileiros que vi aborda de fato as razões da desigualdade. Apenas dizem que ela existe.

Quando converso com pessoas pobres no Brasil, elas acham que é algo dado por Deus. Citam a corrupção, os maus políticos — mas isso é só metade da verdade. Buscam soluções fáceis: o fascismo, por exemplo. Os militares. Mas essas soluções não funcionam; só pioram as coisas.

Para mudar as coisas, é preciso primeiro entender o que está acontecendo. Essa é a ideia central desta série / filme: você só vê o que sabe.

Edukação com K.

Teresa mostra a João o que realmente acontece nos bastidores — como esse sistema promove a desigualdade e a cimenta por meio da inflação, dos juros altos e de um sistema tributário injusto, e como a elite se esforça para mantê-lo assim. Embora o Brasil seja hoje uma democracia, pouco mudou na distribuição de poder e riqueza em 400 anos. Teresa abre os olhos de João. Quando ele entende, decide se juntar à revolução.

"The Edukators" foi e é um enorme sucesso no Brasil — um filme cult, até hoje. Enquanto na Europa o filme foi visto como um tratado filosófico sobre a natureza da revolta e a possibilidade de resistência ao capitalismo, para os brasileiros foi uma descrição de possibilidades. Para eles, tudo o que se discute no filme era real. A necessidade de uma mudança radical na sociedade era uma questão concreta, não teórica.

"Edukators Brasil" começa exatamente aí. Revolução: da teoria à prática. É como Jan diz no filme original: Passo 1 — Entender. Passo 2 — Encontrar aliados. Passo 3 — Lutar. O original parou no Passo 2. Edukators Brasil começa no Passo 3.

O que me move, o que me faz querer fazer este filme / série: sei no fundo do coração que o Brasil poderia ser um paraíso. Só precisa de uma mudança fundamental. Para isso, as pessoas precisam entender o que realmente está acontecendo. Você só vê o que sabe.

Mise-en-Scène

Vou me manter fiel ao meu estilo e filmar de forma realista, num estilo documental neorrealista. Quanto à parte de "drama social" do filme, isso não é novidade, mas continua muito popular com o público — a autenticidade nunca sai de moda. É, porém, particularmente interessante para as cenas de ação. Hoje há muitos exemplos de quão fortes e intensas elas podem ser quando encenadas de forma realista, próximas dos personagens, com a câmera como uma companheira participante — de "A Identidade Bourne" a "Victoria". É justamente essa mistura que tem um apelo especial, e que me empolga. É simplesmente imbatível quando você acha que está num drama social hiper-realista (e isso eu sei fazer — praticamente coinventei o gênero; até no meu filme "Ruído Branco", espectadores mais velhos vinham até mim chocados depois da sessão, convencidos de que era um documentário) e, de repente, irrompem esses elementos de crime. Você se vê enredado numa aventura a curta distância. É incrivelmente envolvente. Esse já era um dos fatores de sucesso de "The Edukators": como aqueles estudantes completamente normais de repente se tornam sequestradores. Quase a mesma coisa acontece com o nosso João.

Só que ele é um homem do povo, vindo do meio do povo. A necessidade de uma revolta neste filme não é determinada pela burguesia. A transformação do simples trabalhador em revolucionário é o elemento central do filme.

Imagens

A energia vibrante deste país — as cores dos blocos de apartamentos e da selva, a praia e o concreto das avenidas de onze pistas — oferece um caleidoscópio de estímulos visuais a serem captados. As milhares de variações nos rostos da mistura colorida de povos que imigraram para este país de todos os continentes — Ásia, Europa e Américas, em todos os tons — oferecem ainda mais possibilidades para criar imagens. A incrível beleza da natureza do país também é captada, ao menos nos sonhos de João por uma vida melhor, e nas visões de Teresa do que o Brasil poderia ser.

Percebi que em nenhum filme jamais vi as cidades do Brasil como as vejo com meus próprios olhos. Falta sempre algo. Vê-se sempre imagens coloridas, recortes selecionados. Nunca se vê o Brasil como ele é. Uma quantidade incrível de detalhes que me saltam aos olhos simplesmente não é levada em conta.

Onde se posiciona a câmera e que enquadramento se escolhe faz uma enorme diferença. Os filmes brasileiros costumam focar muito nos rostos dos atores; quase não há planos abertos, mal se vê o entorno. Isso se deve, sem dúvida, à linguagem visual das telenovelas com que os cineastas crescem, feita quase exclusivamente de close-ups.

Produções estrangeiras filmadas no Brasil costumam se concentrar nos cartões-postais turísticos: Copacabana, Rio, favelas coloridas, praias bonitas, rostos sorridentes, mendigos e ladrões de rua, carnaval e futebol, barracos e arranha-céus — clichês que vendem bem. Vou evitá-los. Minha perspectiva será a de João. Ainda não sei exatamente como, mas quero mostrar o Brasil como ele realmente é por dentro — a vida real, não apenas o que é especialmente belo, especialmente feio ou especialmente incomum.